Havia vestígios de massa de bolo de chocolate em meus lábios, queixo e bochechas. Eram os vestígios do meu crime. Minha mãe virou-se para mim e esbravejou que eu aprendesse a me controlar, que era sempre eu a alterar sua receita “metendo o dedo na massa do bolo”. A zanga passava rápido e minha cara nem ardia. Era eu uma ratazana a beliscar de tudo um pouco das delícias que ela preparava. A culpa era dela, por cozinhar tão bem? Ou seria culpa da minha gula? O fato é que, invariavelmente, eu recaía no mesmo delito.
Não foram poucas as vezes em que fui flagrada assaltando o freezer atrás do sorvete de creme. Eu pequenina, subia num banquinho e abria o freezer e, com uma colherinha de chá sempre de prontidão, cavucava o sorvete ali mesmo, com o vapor gelado vindo direto para o meu nariz...Dali para as crises de bronquite – castigo pior do que os gritos irados de minha santa mãezinha – eram dois tempos. E talvez, só por ser proibido, era tão mais delicioso praticar aqueles pequenos delitos…
Era sempre exemplarmente punida, nem sempre por minha mãe, mas bastava mexer no freezer atrás de sorvete e o narizinho, que, dentro em pouco, começava a fungar e a garganta coçava… Não era menos audaciosa na hora de escolher com quê brincar: adorava mexer em água. No auge do inverno fazia piscininha de espuma para as Barbies com água da torneira e xampu – depois descobri que causava menos estresse usando detergente…
Posso dizer que tive uma infância feliz e sem privações de qualquer espécie. Não faltava a mim imaginação para imitar Sandra Annemberg – que eu admirava desde então como modelo de jornalista. Dispunha de um banquinho vermelho – que eu deitava virado para mim, fazendo de conta que era a minha bancada. Pegava umas folhas de caderno, que constituíam meu roteiro e começava a apresentar meu telejornal, dizendo: “Boa noite! Está começando mais um jornal na TV… O clima em São Paulo varia ao longo da semana, com frio extremo e, para este final de semana preparem a pipoca para ver um filme, pois não haverá sinal de sol e calor pelos próximos dias… Agora vamos às notícias…”, mas bastava alguém entrar no quarto e eu me calava, envergonhada e contrariada por ter perdido a privacidade.
Manuela Viana.
Piritiba/BA, 14 de junho de 2023.