sábado, 14 de outubro de 2023

Labareda

É madrugada, baby. 

Estou insone no coração do sertão baiano. 

Mora dentro de mim a labareda de mil inquisições - de nenhuma escapei. 

De nenhuma escaparei.


Versos descabidos

 Não cabe no caramelo

a doçura 

da cana.

Não cabe no teto

a luz fotogênica

do luar.

Não cabem mais

em meu peito

tuas juras de desamor.

quarta-feira, 14 de junho de 2023

Retratos da meninice

 

    Havia vestígios de massa de bolo de chocolate em meus lábios, queixo e bochechas. Eram os vestígios do meu crime. Minha mãe virou-se para mim e esbravejou que eu aprendesse a me controlar, que era sempre eu a alterar sua receita “metendo o dedo na massa do bolo”. A zanga passava rápido e minha cara nem ardia. Era eu uma ratazana a beliscar de tudo um pouco das delícias que ela preparava. A culpa era dela, por cozinhar tão bem? Ou seria culpa da minha gula? O fato é que, invariavelmente, eu recaía no mesmo delito.

    Não foram poucas as vezes em que fui flagrada assaltando o freezer atrás do sorvete de creme. Eu pequenina, subia num banquinho e abria o freezer e, com uma colherinha de chá sempre de prontidão, cavucava o sorvete ali mesmo, com o vapor gelado vindo direto para o meu nariz...Dali para as crises de bronquite – castigo pior do que os gritos irados de minha santa mãezinha – eram dois tempos. E talvez, só por ser proibido, era tão mais delicioso praticar aqueles pequenos delitos…

    Era sempre exemplarmente punida, nem sempre por minha mãe, mas bastava mexer no freezer atrás de sorvete e o narizinho, que, dentro em pouco, começava a fungar e a garganta coçava… Não era menos audaciosa na hora de escolher com quê brincar: adorava mexer em água. No auge do inverno fazia piscininha de espuma para as Barbies com água da torneira e xampu – depois descobri que causava menos estresse usando detergente…

    Posso dizer que tive uma infância feliz e sem privações de qualquer espécie. Não faltava a mim imaginação para imitar Sandra Annemberg – que eu admirava desde então como modelo de jornalista. Dispunha de um banquinho vermelho – que eu deitava virado para mim, fazendo de conta que era a minha bancada. Pegava umas folhas de caderno, que constituíam meu roteiro e começava a apresentar meu telejornal, dizendo: “Boa noite! Está começando mais um jornal na TV… O clima em São Paulo varia ao longo da semana, com frio extremo e, para este final de semana preparem a pipoca para ver um filme, pois não haverá sinal de sol e calor pelos próximos dias… Agora vamos às notícias…”, mas bastava alguém entrar no quarto e eu me calava, envergonhada e contrariada por ter perdido a privacidade.


Manuela Viana.

Piritiba/BA, 14 de junho de 2023.

quinta-feira, 8 de junho de 2023

Na sauna com essência de eucalipto

Flagrei meu suor escorrer sem o menor esforço. Havia o vapor – que dava ao ambiente um ar de mistério e sedução. Meu corpo jovem e são transpirava incessantemente. Era eu toda suor e leveza. Não havia rede social virtual nem smartphones – essas pragas contemporâneas que nos sequestram do agora. Só havia eu com meu biquíni sentada na sauna, a evaporar por todos os poros.

“Creio que já está de bom tamanho!”, disse minha mãezinha ao notar minha lerdeza e torpor.

Era junho ou julho de quase trinta anos atrás. Não tinha que me preocupar com boletos. Fazia frio e meu corpo quase adolescente se deliciava com o vapor de eucalipto. Ao mesmo tempo todo aquele calor me fazia ter um impulso irresistível de pular na piscina do condomínio feito uma patinha feliz. Pular na piscina fria depois de derreter feito um bom chocolate ao leite no banho-maria.

Que gosto teve a sua infância? A minha foi doce na maior parte do tempo. “Batida” de groselha com gelo e leite condensado – totalmente sem álcool, antes que a patrulha do bom senso venha se horrorizar – era a praia de Santos com sua areia escura e úmida. Praia dos meus verdes anos de inocência.

Logo mais adiante, o exílio no Nordeste...


sábado, 11 de março de 2023

Sábado


Mas era tão ansiosamente que eu esperava o sábado chegar
Como pretexto para olhar teus olhos pretinhos
E teu cabelo preto
E teu sorrisinho tímido
E a covinha no teu queixo
Que me perturba o sono...

Baby, um dia você me ouvirá
Sussurrar teu doce nome 
Entre as dobras do lençol
Com o nosso cheiro impresso...

O cheirinho suave que exala de você
Me bota abobalhada
E talvez por isso
Meu sorriso não se contém
Quero te ver um dia
sem esse véu de timidez
Quero um dia teu olhar sobre mim
Nossas curvas sinuosas nessa estrada sem fim 
Teu monte de Vênus ao alcance da minha mordida
Teus braços me envolvendo
E o dia indo embora nas asas de uma borboleta.